Meio Ambiente: OS DESAFIOS PARA SALVAR A MAIOR ESPÉCIE EXCLUSIVA DO PAÍS, O VEADO-MATEIRO-PEQUENO

Grupos isolados em fragmentos de Mata Atlântica nas regiões Sudeste e Sul enfrentam desmate, caça, cachorros e doenças transmitidas por bovinos.

Cientistas estão movendo mundos e fundos para salvar grupos isolados do veado-mateiro-pequeno, a maior espécie endêmica do Brasil. Reconhecida pela ciência há 30 anos, é peça-chave para manter a saúde da Mata Atlântica. Muito caçado, alvo de cachorros domésticos e doenças bovinas, o veado prefere circular à noite sob o dossel das florestas.

Quando seu telefone tocou naquele janeiro de 1991, o doutor em Biologia pela Universidade Estadual Paulista Júlio Mesquita Filho (Unesp) e líder do grupo de pesquisa de Cervídeos Brasileiros do CNPq, José Barbanti, não imaginava que embarcaria numa investigação que revelou uma nova espécie de cervo. 

Na ligação, o Zoológico Municipal de Sorocaba (SP) contou sobre um animal que lá chegou vindo de um zoo que havia fechado, em Capão Bonito (SP), a 130 quilômetros de distância. O cervo, adulto, parecia menor e um pouco diferente de todos os cervídeos já catalogados no país. 

Uma primeira população da nova espécie só foi localizada 3 anos depois, no Parque Estadual Intervales (SP). O achado possibilitou análises de DNA – o ácido que tem informações genéticas de cada espécie -, retirado de fezes localizadas por cães treinados. 

“Esses cervídeos são muito semelhantes na forma, mas distintos na genética. Sem essas análises não perceberíamos as diferenças [entre outras espécies]”, destaca Barbanti, coordenador-executivo do Plano Nacional de Conservação dos Ungulados, os animais que têm cascos.

Assim o país conheceu o Mazama jucunda, o cervo-do-mato-pequeno. Parente do veado-mateiro e do veado-virá, integra uma grande família distribuída nas américas Central e do Sul. Todos têm chifres simples e preferem viver abrigados em florestas. 

Também são arredios e solitários. Pesando até 25 Kg, a espécie é a de maior porte exclusiva do Brasil, afirma Barbanti, da Unesp. Logo atrás vem o macaco muriqui, cujos machos podem chegar a 15 Kg. 

Populações do cervo foram rastreadas em fragmentos florestais em São Paulo, Paraná, Santa Catarina e Espírito Santo. Crânios em museus indicaram que  ele também existiu ao menos em Goiás e na Bahia. “Estimamos que ele viva hoje em menos de 10% da sua área original”, constata Barbanti. 

Espécime registrado este ano na Reserva Particular do Patrimônio Natural Salto Morato, em Guaraqueçaba (PR). O brilho nos olhos é causado pelo flash das câmeras trap. 

Daí a importância da preservação da Mata Atlântica, encolhida pelo desmate e urbanização a ¼ do que existia há pouco mais de 500 anos, quando colonos europeus aportaram em praias tupiniquins. Todavia, apenas 12,4% desses remanescentes estão bem preservados, informa a ONG SOS Mata Atlântica. 

Pois, um estudo publicado no Journal for Nature Conservation estimou que conservar 2% de regiões estratégicas do bioma pode salvar 3 cervídeos, incluindo o cervo-do-mato-pequenoA área a ser mantida tem 48,4 mil km2, similar a do Espírito Santo. Menos da metade já está abrigada em reservas ecológicas ou terras indígenas.

“Manter o que resta da Mata Atlântica depende mais de políticas estaduais e municipais. O Mazama jucunda precisa muito de áreas bem preservadas, pois é menos versátil que outras espécies”, ressalta Alexandre Vogliotti, um dos autores do estudo e professor na Universidade Federal da Integração Latino-Americana (Unila).

Um dos maiores blocos conservados do bioma está na Estação Ecológica de Xitué e nos parques estaduais das Nascentes do Paranapanema, Turístico do Alto Ribeira, Carlos Botelho e Intervales, todos no estado de São Paulo. Juntos mantêm cerca de 1.390 Km2 de vegetação, águas e cavernas da Mata Atlântica, área pouco menor que a capital paulista.

“Visitantes valorizam mais [o parque] quando descobrem que ele tem espécies raras ou ameaçadas. Cientistas avaliam que a fauna de Intervales é praticamente igual à de 500 anos atrás”, destaca Thiago Conforti, gestor da reserva, que recebia até 18 mil turistas anuais, antes da pandemia de Covid-19.

Carrossel de ameaças

Apesar da avançada degradação, a “erosão interna” da Mata Atlântica tem eliminado fragmentos do bioma em várias regiões, também mostra a SOS Mata Atlântica. Mas além do desmate, caçadores e cachorros domésticos matam adultos e filhotes dos últimos grupos do cervo-do-mato-pequeno. 

“Cervídeos são muito caçados, sobretudo desde pequenos municípios na região, de onde [moradores] locais até trazem pessoas de outras cidades para caçar dentro de áreas protegidas”, descreve Thiago Conforti, gestor do Parque Estadual Intervales.

A espécie também é alvo da febre aftosa e até da letal ‘doença da língua azul’, transmitida da boiada aos cervos por mosquitos. Ao ser contagiado, os cervos morrem por severa hemorragia. 

Uma nova pressão é o chital (Axis axis), cervo trazido da Ásia para parques de caça na Argentina e Uruguai. Conseguiu escapar ou foi solto e já transita inclusive em reservas de estados sulistas. O governo gaúcho autorizou suas caçadas tentando erradicá-lo. Machos podem pesar 110 quilos, mesmo porte do cervo-do-pantanal. 

“A espécie invasora pode transmitir doenças e competir por espaço e recursos naturais com animais nativos do Brasil. O Axis tem que ser controlado, pois perdas de ungulados [como o cervo-do-mato-pequeno] afetam toda a estrutura florestal”, destaca Vogliotti, da Unila.

Mazama jucunda na Reserva Particular do Patrimônio Natural Salto Morato, em Guaraqueçaba (PR). O brilho nos olhos é causado pelo flash das câmeras trap. 

Afinal, a espécie é um dos “jardineiros” da Mata Atlântica, explica José Barbanti, da Unesp. “Ele come e [com suas fezes] ajuda a disseminar frutas e outras plantas, mantendo a densidade e a estrutura das florestas. O cervo também alimenta grandes predadores, como onças e harpias”, explica. 

Um criadouro da Unesp abriga hoje 100 animais das nove espécies de cervídeos brasileiros, em Jaboticabal (SP). A coleção é uma das maiores do globo. O cervo-do-mato-pequeno já se reproduz no local. Mas soltá-los na natureza depende de apontar onde viveram no passado e de reduzir as ameaças sobre seus derradeiros grupos.

“Ainda sabemos pouco da espécie, descoberta já no limiar da extinção. O desafio é manter populações geneticamente saudáveis para estratégias futuras de conservação. O cativeiro serve para isso”, disse Barbanti, membro do Grupo de Especialistas em Cervos da União Internacional para a Conservação da Natureza (UICN).

 

 

(Da Redação com O Eco – Foto: Francisco Grotta-Neto)

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