Uma vacina por inalação desenvolvida pela empresa portuguesa Immunethep pode ser a próxima arma contra a COVID-19.

A SILBA apresentou bons resultados nos ensaios pré-clínicos em animais e deve ser testada em humanos a partir de julho. O diretor da empresa diz que há interesse em testá-la no Brasil.

Em entrevista à Sputnik Brasil, Pedro Madureira, cofundador e diretor científico da Immunethep, explica que a vacina se assemelha às bombinhas usadas contra asma e que deverá ser aplicada em duas doses. Segundo ele, uma das vantagens de ser por inalação é garantir que o imunizante realmente chegue aos pulmões, a melhor forma de criar imunidade para infecções respiratórias.

“Portanto, se nós queremos imunizar os pulmões e realmente garantir que as mucosas pulmonares fiquem prontas para responder a uma infecção ao vírus, a melhor forma será como aquelas bombas de asma, como inalador, algo que se inspire e que realmente chegue aos pulmões, garantindo o máximo de proteção no local de entrada do vírus”, afirma Madureira.

Outro aspecto vantajoso é a maior facilidade da administração da vacina, já que não precisará de médicos nem enfermeiros para aplicá-la. De acordo com o cientista, as dificuldades de distribuição e aplicação em países menos desenvolvidos, em decorrência de haver poucos profissionais de saúde, são problemas graves que podem ser evitados.

“Neste caso, como é algo inalado pela própria pessoa, pode ser tomado sem que seja preciso um acompanhamento pessoal médico ou tratamento especializado. Facilita muito a tomada da vacina e a distribuição em países menos desenvolvidos”, acrescenta.

Madureira justifica que a opção por duas doses tem mais a ver com o nosso sistema imunológico do que com as características próprias da vacina, já que, após uma reexposição ao mesmo antígeno, há de ter uma resposta muito mais forte ao vírus, ativando ao máximo as defesas do organismo.

Pedro Madureira e Bruno Santos, co-fundadores da empresa portuguesa Immunethep.

FÁRMACO USA VÍRUS INATIVADO COMO UM TODO E PREVINE NOVAS VARIANTES

Contudo, Madureira destaca uma diferença em relação aos demais fármacos contra COVID-19 já no mercado, uma vez que a SILBA utiliza o vírus inativado como um todo. A estratégia é de impedir que as novas variantes que apareçam deixem de estar protegidas pela vacina.

“Poderíamos usar uma pequena parte do vírus, como estão a fazer quase todas as outras empresas. Só que aí há o problema das novas variantes. Quanto maior for o reconhecimento do sistema imunológico do vírus como um todo, menor a probabilidade de essas variantes escaparem à eficácia da vacina. Se estivermos a mostrar ao sistema apenas uma parte do vírus, tudo o que vai reconhecer é uma pequena parte de uma proteína, que é normal que se altere. Essa vacina já perde a eficácia”, compara.

Os resultados preliminares dos ensaios pré-clínicos realizados em 20 ratos demonstraram uma capacidade de produção robusta de anticorpos específicos contra o SARS-CoV-2, que neutralizam a propagação do vírus em culturas de células in vitro. Os animais receberam duas doses da vacina com três semanas de intervalo entre cada uma.

Foram utilizados dois grupos de ratos imunizados, de forma a testar duas doses diferentes da vacina: Low Dose (LD), com uma quantidade menor de vírus inativado por dose de vacina; e High Dose (HD), com uma quantidade elevada. Uma semana depois da administração da última dose, foi quantificado no soro dos animais a presença de anticorpos contra a proteína Spike do SARS-CoV-2, mais especificamente para o domínio RBD desta proteína.

“Em termos de ensaios clínicos, há um modelo animal que é muito semelhante aos humanos que são ratinhos modificados geneticamente, que expressam o mesmo efeito para o vírus que nós. Desenvolvem uma doença muito semelhante à que se desenvolve nos humanos, as mesmas lesões pulmonares, a mesma resposta inflamatória. Os ensaios estão a correr bem, e os resultados são muito promissores”, comemora.

Nos ensaios, 20 outros ratos foram usados como grupo de controle, recebendo apenas o adjuvante da vacina, um análogo sintético de RNA. De acordo com os resultados, comparativamente com os animais do grupo de controle, os outros imunizados “apresentaram consistentemente uma maior quantidade de anticorpos contra o domínio RBD da proteína Spike”.

“O mais importante é ter bons controles. Para avaliar determinado efeito, tem que estar sempre comparando com animais que não receberam essa vacina em um grupo controle”, pontua.

PREVISÃO DE QUE IMUNIZANTE ESTEJA NO MERCAD OEM MEADOS DE 2022

O cronograma prevê avançar para ensaios clínicos em seres humanos a partir de julho. Serão três fases, as duas primeiras em centenas de pessoas, e a terceira, em milhares. No entanto, a Immunethep ainda necessita de investimentos da ordem de € 20 milhões (R$ 131,2 milhões) para financiar as próximas etapas.

De acordo com Madureira, o governo português está interessado no projeto, e as negociações se dão com os ministérios da Economia e dos Negócios Estrangeiros no sentido de estudar a forma mais rápida de obter o capital.

“É essencial esse apoio do governo. Nos outros países, as vacinas que chegaram primeiro ao mercado foram aquelas que tiveram apoio dos respectivos governos. O governo português está atento a esse fato e já demonstrou o interesse no nosso projeto diversas vezes, o que é ótimo”, assinala.

De qualquer forma, é provável que a SILBA tenha que ser testada em cidadãos em outros países, já que o cronograma português da vacinação prevê que até, o fim de maio, todas as pessoas de 60 anos ou mais já estejam imunizadas. Madureira diz que seria importante testá-la no Brasil e em outros países de língua portuguesa com os quais Portugal mantém boas relações comerciais.

“A parte 3 desses ensaios clínicos terá que ser feita fora de Portugal porque a maior parte dos grupos de risco já estará vacinada quando começarmos os ensaios. Para garantir e avaliar a eficácia nesses grupos de risco, teremos que fazer em outros países. Já temos interesse de alguns e, para nós, seria extremamente interessante poder testá-la no Brasil e, mais tarde, distribuí-la no país”, revela.

A Immunethep mantém uma parceria com a PNUVAX, fabricante global de vacinas no Canadá. A previsão é de que o imunizante esteja disponível no mercado no fim do primeiro semestre de 2022. Desde a sua fundação, em 2014, a Immunethep, uma empresa de biotecnologia spinoff da Universidade do Porto, tem se dedicado ao desenvolvimento de imunoterapias, principalmente contra infecções bacterianas multirresistentes.

Apesar de contar apenas com dez colaboradores, o know-how adquirido pela equipe com o processo de desenvolvimento de imunoterapias antibacterianas permitiu iniciar de uma forma rápida os testes de uma vacina para a COVID-19. A Immunethep é focada no desenvolvimento de imunoterapias antibacterianas que tem como base a descoberta de um mecanismo de virulência partilhado por um conjunto de bactérias patogênicas diferentes que causam infecções potencialmente fatais.

PORTUGUAL PRETENDE VACINAR 100 MIL PESSOAS POR DIA

Enquanto a vacina portuguesa não chega ao mercado, o plano nacional de vacinação entrou na sua segunda fase com uma maior disponibilidade de vacinas por parte das empresas farmacêuticas fornecedoras. Nas próximas semanas, a força-tarefa portuguesa planeja atingir um ritmo diário de cerca de 100 mil inoculações, de pessoas de 60 anos ou mais. Nos primeiros meses, foram administradas 20 mil doses diárias, número que passou a 60 mil nas últimas semanas.

No total, já foram inoculadas 3.485.547 doses de vacina contra a COVID-19 em Portugal, sendo que 9% da população já receberam as duas doses, e 25,19% foram imunizadas pelo menos com a primeira dose. De acordo com o jornal Público, em 10 dias, 206 mil pessoas já fizeram o autoagendamento para serem vacinadas.

A medida foi anunciada pelo governo para agilizar o processo de marcação da imunização, permitindo um incremento significativo de agendamentos e a liberação de profissionais de saúde que se encontravam empenhados no agendamento in loco. Segundo a força-tarefa, isso contribui para o necessário aumento do ritmo de inoculações.

No entanto, houve grandes filas em alguns postos de vacinação no último fim de semana, como em Sintra, a meia hora de Lisboa, onde houve 200 autoagendamentos sem conhecimento prévio. Já nesta segunda-feira (3), uma sobreposição de horários em 800 marcações para a segunda dose provocou tumulto em Coimbra. Também houve longas filas em Cascais.

Em nota ao Público, a força-tarefa justificou que em um “sistema maciço e complexo, é normal que decorram perturbações pontuais”.

“Todas as perturbações já estão identificadas, estando em curso a correção tão expedita quanto possível, estimando-se que este processo de agendamento misto esteja a funcionar sem problemas significativos na próxima semana”, lê-se em um trecho da nota.

(Da Redação com Sputnik)

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